Durante muito tempo, o meu corpo era uma coisa que eu “tinha” que cuidar. Fazia exercício porque “devia”. Caminhava porque era “bom”. Esticava porque “ajudava”. Tudo era uma espécie de obrigação disfarçada de autocuidado.
Até que um dia, em uma manhã de sábado, enquanto ouvia uma música antiga no rádio da cozinha, comecei a me mexer sem pensar. Não era dança no sentido de passos certos. Era apenas o corpo respondendo ao ritmo — ombros que se moviam, quadril que balançava levemente, pés que batiam no chão de azulejo. Quando a música acabou, eu estava rindo sozinha. Tinha dançado sem ninguém ver, sem espelho, sem julgamento. E tinha gostado.
Caminhar como quem conversa com o lugar
Depois daquela manhã, comecei a prestar atenção em como me movia no dia a dia. Percebi que, quando caminhava para o mercado, muitas vezes ia com a cabeça baixa, pensando em listas. O corpo ia, mas eu não estava realmente lá.
Então comecei a mudar. Em vez de ir pelo caminho mais rápido, escolhia rotas diferentes. Passava pela praça onde as crianças brincam, pela rua com as árvores antigas, pelo beco que cheira a jasmim em maio. Caminhava mais devagar. Olhava para as fachadas, para as pessoas que vendiam flores, para o gato que sempre está na mesma janela.
Não era exercício. Era uma forma de estar no lugar. E o corpo respondia com mais energia, com menos rigidez, com uma sensação de que estava sendo usado para algo que fazia sentido.
Dançar na cozinha e outras pequenas liberdades
A dança na cozinha virou um hábito. Quando estou sozinha, ponho uma música — qualquer uma, desde fado antigo até algo mais atual — e deixo o corpo fazer o que quiser enquanto mexo a panela ou corto legumes. Às vezes é só balançar a cabeça. Outras vezes é uma espécie de valsa lenta com o rolo da massa.
Não é sobre queimar calorias ou “manter a forma”. É sobre lembrar que o corpo é meu e que pode se expressar de formas que ninguém ensina na academia.
Outra coisa que faço é esticar-me de forma preguiçosa. Não com sequências de yoga que vi em vídeos. Apenas deito no chão ou na cama e deixo o corpo encontrar as posições que precisa naquele momento. Às vezes fico com as pernas para cima na parede. Às vezes faço uma ponte com o corpo só para sentir a coluna alongar. O critério é simples: se sente bem, fica. Se não sente, mudo.
O que mudou quando parei de forçar
Quando tirei a pressão de “ter que me exercitar”, o corpo começou a pedir movimento de outras formas. Acordava com vontade de caminhar. Depois do almoço, sentia necessidade de me mexer um pouco. À noite, antes de dormir, o corpo pedia para se soltar.
Não tenho uma rotina fixa. Tenho uma relação. E essa relação é muito mais interessante do que qualquer plano de treino que já segui.
Um convite para o seu corpo
Se quiser experimentar, não precisa de roupa especial nem de tempo marcado. Hoje, em algum momento, quando estiver sozinha, ponha uma música que goste e deixe o corpo se mexer como ele quiser. Pode ser por um minuto só. Pode ser sem ninguém ver.
Ou, se preferir, saia para caminhar sem destino por quinze minutos. Não conte passos. Não marque tempo. Apenas vá e veja o que o lugar tem para mostrar.
O corpo sabe. Só precisamos de lhe dar espaço para falar.
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