Todo sábado, vou ao mercado da minha rua. Não é o maior de Lisboa, mas é o que conheço melhor. Os feirantes sabem o meu nome, sabem que gosto de cenouras pequenas e de ervas frescas. Eu sei que a D. Carmo tem as melhores laranjas e que o Sr. António guarda sempre uma abóbora especial para quem pede.
Não vou com uma lista rígida. Vou com uma ideia vaga — talvez algo para assar, talvez uma sopa, talvez só frutas para comer ao longo da semana. O resto, deixo que o mercado me diga.
O que os olhos e o nariz ensinam
Quando chego, não procuro logo o que “preciso”. Caminho devagar entre as barracas. Olho as cores. Toque as frutas que parecem firmes. Cheiro as ervas que acabaram de ser cortadas. Às vezes, uma couve com folhas roxas me chama mais atenção do que a alface que eu planejava comprar. Outras vezes, o cheiro de manjericão fresco me faz mudar o plano do jantar inteiro.
Percebi que, quando escolho com os sentidos, a comida que chega em casa tem mais história. Não é só “vegetais”. São vegetais que vi crescer nas mãos de alguém, que foram colhidos naquela manhã ou no dia anterior, que ainda têm o cheiro da terra ou do sol.
Histórias que o mercado conta
A D. Carmo me ensinou a escolher tomates pelo cheiro, não só pela aparência. “Se não cheira a tomate, não vai saber a tomate”, ela diz sempre. E tem razão. Os tomates que cheiram a verde e a terra são os que, depois de assados devagar com alho e azeite, viram o centro da mesa.
O Sr. António, que vende queijos e enchidos, uma vez me deu uma fatia pequena de um queijo novo para provar. “Diga-me o que sente”, pediu. Eu disse que tinha gosto de noz e de erva. Ele riu e disse que era exatamente isso que queria que as pessoas sentissem. Desde então, sempre que compro queijo com ele, paro para provar e para conversar.
Essas conversas curtas são parte do que torna o mercado diferente do supermercado. Não é só transação. É troca. De saberes, de histórias, de recomendações.
Da barraca para a panela
Quando chego em casa com as compras, não sigo receitas. Deixo os ingredientes na mesa e olho para eles. O que combina com o que? O que está maduro hoje? O que precisa de ser usado logo?
Às vezes, faço uma salada simples com o que sobrou de outros dias mais os legumes novos. Outras vezes, assado tudo junto no forno com muito azeite e ervas. Outras, faço uma sopa que cozinha devagar enquanto eu escrevo ou leio.
O critério não é “saudável” ou “equilibrado”. É “isto parece gostoso hoje”. E, curiosamente, quando escolho assim, a refeição quase sempre fica equilibrada por si só.
O que aprendi com o tempo
Com o tempo, percebi que não preciso de muitas variedades. Preciso de qualidade e de atenção. Um bom tomate, um bom azeite, uma boa erva e um pouco de sal já fazem uma refeição memorável. O resto é adição.
Também aprendi que desperdiçar menos é uma forma de respeito. Quando escolho com cuidado, uso tudo. As cascas de cebola viram caldo. As folhas de cenoura viram pesto. O pão que sobra vira torrada com azeite e tomate.
Não é sobre perfeição. É sobre relação. Com o lugar onde vivo, com as pessoas que produzem a comida, com o meu próprio corpo que recebe tudo isso.
Um convite para o seu sábado
Se quiser experimentar, da próxima vez que for ao mercado ou à feira, tente ir sem lista. Ou com uma lista muito curta. Deixe os olhos e o nariz guiarem. Compre uma coisa que nunca experimentou só porque pareceu interessante. Depois, em casa, veja o que ela quer ser.
Pode ser o início de uma nova história na sua mesa.
Obrigada por ler até aqui. Se quiser partilhar as suas próprias descobertas no mercado ou na cozinha, me escreva. Adoro ler mensagens de quem também presta atenção aos dias.