CAPÍTULO PESSOAL

Quem está por trás destas palavras

Meu nome é Rosaline Akiola. Nasci em Lisboa, mas cresci entre dois mundos — a cidade que nunca dorme e as histórias que minha avó contava sobre as ilhas de Cabo Verde. Ela chegava com cheiro de mar e pimenta na voz. Eu ficava horas ouvindo, sem entender direito, mas sentindo que existia uma outra forma de estar no mundo.

Quando completei vinte e três anos, mudei-me para Coimbra para estudar Literatura. Achava que ia escrever romances grandiosos. Acabei escrevendo relatórios de estágio em uma editora pequena, revisando textos alheios e esquecendo os meus. O ritmo era bom no papel, mas o corpo começou a reclamar. Insônia, dores nas costas, uma sensação constante de que estava sempre atrasada para algo que nem sabia o nome.

“Um dia percebi que não lembrava mais o gosto do café que tomava todas as manhãs. Só sabia que era amargo e precisava de açúcar.”

Em 2019, depois de um inverno particularmente pesado, pedi demissão. Não tinha plano B. Apenas um bilhete de trem para o Alentejo e um caderno que minha mãe me deu quando eu tinha quinze anos. Fiquei três meses em uma casa emprestada perto de Évora. Não tinha internet boa. O dia começava com o canto dos galos e terminava com o vento batendo nas persianas.

Nesse silêncio, comecei a anotar coisas bobas. O formato da nuvem que ficou parada sobre o campo por quase uma hora. Como o pão de centeio que a vizinha me ensinou a fazer precisava de tempo, não de pressa. O prazer de lavar a louça com água quente enquanto via o sol baixar. Nada disso parecia importante. Mas quando voltei a Lisboa, senti falta daquela lentidão como quem sente falta de uma pessoa.

O retorno e a decisão

Voltei para a cidade, mas não para o mesmo apartamento. Escolhi um bairro mais quieto, perto de um pequeno mercado onde os feirantes ainda conhecem o nome das pessoas. Comecei a trabalhar como revisora freelance e, nas horas vagas, continuei o caderno. Só que agora ele tinha um nome: Jeres — palavra que minha avó usava para dizer “caminho” ou “passagem” em crioulo.

Não foi um projeto. Foi uma necessidade. Eu precisava de um lugar para colocar as coisas que via e sentia, senão elas se perdiam. E, aos poucos, percebi que outras pessoas também andavam procurando algo parecido. Não um método. Apenas companhia.

O que faço hoje

Moro entre Lisboa e uma pequena aldeia no interior do Alentejo. Divido meu tempo entre revisar textos de outras pessoas, cozinhar para mim e para amigos que aparecem sem aviso, e caminhar. Caminho muito. Às vezes com música, às vezes só com o som dos meus passos na terra.

Não sou especialista em nada. Não tenho certificados de nutrição, nem de meditação, nem de movimento. Tenho apenas curiosidade e uma memória boa para cheiros e texturas. O que escrevo aqui vem dessa curiosidade — e da certeza de que ninguém precisa de permissão para prestar atenção ao que o dia oferece.

“Não quero ensinar ninguém a viver. Quero apenas mostrar que é possível viver de outra maneira, mesmo quando tudo ao redor parece exigir velocidade.”

Se você chegou até aqui, provavelmente também está cansada de respostas prontas. Bem-vinda. Este espaço é nosso. Sem pressa.

Pequenos marcos que me trouxeram aqui

2019
Demissão e primeira viagem ao Alentejo. O caderno voltou a ser usado depois de anos guardado na gaveta.
2020
Voltei a Lisboa com novos olhos. Mudei de bairro, comecei a frequentar o mercado da esquina e a anotar receitas que a D. Carmo me contava.
2022
Primeira publicação no Jeres. Um texto sobre o cheiro do alecrim torrado que viralizou entre amigos. Decidi abrir o caderno para mais gente.
2024
Mudei parte do ano para uma casa antiga no Alentejo. Lá o ritmo é ditado pelo sol e pela chuva. O caderno ganhou novas páginas sobre silêncio e vento.